A minha residência de acordo com Hertzberger

O livro Lições de Arquitetura, de Herman Hertzberger, inicia-se com a diferença entre espaço público e espaço privado. 

(HERTZBERGER, H. Lições de arquitetura, 1999)

Cada área pode ser caracterizada como privada ou pública, tudo depende da comparação que é feita, de qual outra área está servindo como comparativo, e para se analisar o enquadramento de cada uma deve-se levar em conta o “acesso, à responsabilidade, à relação entre a propriedade privada e a supervisão de unidades espaciais específicas (pág. 13)”. Tendo isso em vista, pode-se perceber que uma residência pode se enquadrar ora privada, ora pública. Se for comparada com a rua, a residência torna-se uma construção privada daqueles que residem dentro dela, mas se for comparada com alguns cômodos específicos de dentro dela, como o quarto, ela já se torna pública porque há vários outros cômodos de uso coletivo. Assim, o quarto é o local mais privado de uma residência mesmo que, como no meu caso, ele seja dividido entre várias pessoas.

Como foi mencionado, meu quarto é dividido entre minha irmã e eu. Ele é formado por quatro paredes dispostas de maneira que formam um quadrado, com uma porta de acesso e uma janela, e dispõe dentro dele apenas duas camas, um guarda-roupa e uma escrivaninha. Ainda pode-se perceber que a janela não é como um meio de estender o cômodo para além de suas limitações como ocorre com os cantos abertos da fábrica Van Nelle, de Rotterdam. Essa janela, que fica de frente para os muros que delimitam o quintal, é escura e possui grades que intensificam a sensação de um ambiente fechado e pouco convidativo para visitas. 

Além disso, Hertzberger deixa claro em todo o decorrer do livro que o arquiteto deve se preocupar com que a forma da construção seja capaz de absorver significados, características de seus usufrutuários, e abandoná-los sem mudar a sua essência, sendo assim passível de interação com os usuários e não ter características rígidas e imutáveis como ocorre com esse cômodo em questão. O pouco espaço do quarto faz com que o layout dos móveis seja restrito, não podendo haver mudanças, e as poucas paredes expostas não incentivam modificações, o que contradiz com os conceitos de Hertzberger que diz que:

 “A influência dos usuários pode ser estimulada, onde se pode esperar o envolvimento necessário, e como isto depende do grau de acesso, das demarcações territoriais, da organização, da manutenção e da divisão de responsabilidades, é essencial que o projetista esteja plenamente consciente desses fatores nas suas gradações adequadas (pág. 25)”.

Outro conceito interessante que o autor explora é o conceito de polivalência que diz que um espaço deve apresentar diversas funções implícitas com abertura para a interpretação livre de cada pessoa. Isso pode ser visto com o que ocorre com a mureta da escola Montessori, em Delft, com os blocos de iluminação do alojamento para estudantes de Weesperstraat, e com a mureta circular da minha casa que fica situada no quintal dos fundos. Originalmente o objetivo dela era ser a base para a construção de uma piscina, mas atualmente ela é uma divisória entre a parte aterrada e o concreto, além de ser usada como banco, suporte de vasos e local de brincadeiras para crianças. Outro lugar que não carrega somente a sua funcionalidade original é a escadaria, pois ela ainda é usada como assento ou base para a diversão infantil.

Mesmo que quando se pense em uma residência seja comum surgir a ideia de que todo seu espaço é habitado ou utilizado, a realidade nem sempre é assim. Hertzberger diz que a soleira da porta marca a divisão entre o espaço público, rua, e privado, residência. Porém, no Brasil é comum não haver casas com as portas que dão diretamente para a rua. A minha casa é um desses exemplos onde entre o portão e a porta de entrada há um espaço que não é utilizado. Nenhum dos moradores sente-se à vontade para usufruir do espaço por conta da falta de privacidade causada pelo portão de grades que proporciona uma visão direta da casa para quem passa na rua. 

A única forma de privacidade que temos é causada pelos vidros foscos da janela que impedem a visão nítida do que está ocorrendo dentro da casa e isso é totalmente o oposto das casas da Holanda que foram citadas pelo autor no livro.

Contudo, a rua não é muito movimentada para causar tamanho desconforto. Por ser uma rua sem saída não há muita movimentação de pessoas ou veículos, fazendo com que a vizinhança seja tranquila. Algumas famílias sentem-se tão à vontade que é comum, principalmente aos domingos, encontrar pessoas sentadas nas calçadas conversando e as crianças brincando na rua. Isso apenas demonstra a ideia de Herman Hertzberger sobre dar à rua a qualidade de uma sala de estar para que possa ocorrer a interação cotidiana entre os moradores que ali vivem.




Comentários

  1. Aline (Ane ) Nota A
    Demonstra que leu o livro e entendeu os conceitos, visto que em sua análise grande parte dos conceitos são abordados. Com imagens e citações do próprio Hertzberger, o texto ficou claro além de que todas as problematizações e caracterizações do espaço foram facilmente compreendidos. Também identificou ambientes que careciam dos conceitos de Hertzberger. Ademais, propôs inovações na leitura do espaço, comparando com os exemplos do livro, como a fábrica Van Nelle, e enfatizando as diferenças até mesmo da cultura e tradição arquitetônica entre os países. Por fim, abrange também os aspectos não apenas da residência, como também da rua e da vizinhança.

    Avaliação P2P, feita em grupo por Filip, Racine e Will.

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Postagens mais visitadas